Eduarda e Jobe. Você pode trocar os nomes quando quiser.
Jobe
Segunda-feira normalmente significava treino, academia, alguns compromissos pré agendados e repetir tudo isso outra vez. Mas naquela segunda haveria vinte crianças ocupando metade do nosso campo. E, por algum motivo, desde que ficamos sabendo do trabalho que estava sendo feito com elas, eu fiquei curioso para vê-las chegar.
Fui um dos primeiros a adentrar ao campo, mas não fui o primeiro a chegar, ela estava lá, Eduarda. Parecia tão focada em ajustar a câmera para gravação das crianças, creio que desejava pegar o melhor ângulo, que nem sequer percebeu o momento que eu entrei, o que era até incomum, não havia um lugar onde eu chegasse que não era notado, mas ali, para ela, a sensação que eu tinha era que nada era mais importante do que conseguir fazer seu trabalho bem feito. Depois de arrumar a câmera, ela prendeu o cabelo, tirou uma tablet da bolsa, quase que como um ritual, me lembro que na sexta-feira, antes dela começar a falar conosco sobre o projeto, fez a mesma coisa, prendeu o cabelo e começou.
Fiquei me perguntando por que ela chamava tanto a minha atenção. Nunca a tinha visto, não sabia o sobrenome, não conhecia nenhuma rede social, sabia apenas o mesmo que todo mundo: uma estudante de mestrado que estava desenvolvendo uma pesquisa com o sub-13. Ela só parece ter reparado que eu estava ali observando quando virou devido ao barulho que preencheu o campo, as crianças. Ela sorriu pra mim, quase que por educação creio eu, e foi cumprimentando as crianças uma por uma.
Aos poucos, o restante do time profissional, foi começando o seu treino assim como as crianças, e não pude deixar de reparar quando duas crianças com faixa de capitães se aproximaram dela e pareciam a escutar atentamente, ela não fez um discurso, disse poucas palavras mas que pela distância não consegui ouvir e quando os meninos se afastaram transmitiam a sensação de que eles acreditavam que podiam ganhar qualquer jogo do mundo. E era isso que me intrigava, queria entender como esse trabalho estava sendo feito, e vez ou outra enquanto estava esperando para fazer algum exercício do treino, minha atenção ia diretamente para os meninos que estavam do outra lado da linha de divisão do campo, consegui reparar no instante em que um dos meninos errou um passe, aquele tipo de passe que quando a gente erra, fica frustrado com a gente mesmo, pois o técnico fica frustrado, junto com todos assistindo. Olhei para o treinador deles que não falou nada, o olhar dela seguiu o treinador também, e segundos depois os seis pares de olhos, fixaram em um dos capitães que apenas disse:
— Próxima jogada.
O garoto que errou o passe, respirou fundo, olhou o jogo e na primeira oportunidade que pode, pediu a bola outra vez e arriscou fazer o mesmo passe. E dessa vez o treinador falou:
— Excelente recuperação.
Algo aconteceu, ele recuperou e tentou a mesma coisa de forma muito rápida, quando erramos um passe assim, a ideia é sempre tentar fazer diferente, encontrar outro caminho. Do jeito que eles fizeram, eu nunca tinha visto alguém ensinar futebol daquele jeito. Eu admito que não entendo nada de psicologia, mas naquele treino específico, eles não estavam ensinando dribles, chutes, não, pareciam ensinar o comportamento, eles não corrigirem o menino quando ele errou, mas elogiaram quando ele se recuperou e tentou novamente, não sabia como aquilo funcionava, mas funcionava. Encarei Eduarda que transmitia um sorriso radiante, tenho certeza que havia ficado feliz pelo garoto.
Finalizamos o nosso treino antes dos meninos, pois havia sido combinado que eles teriam um momento de fotos e perguntas conosco, entendo que talvez seja para suprir um pouco dessa expectativa de estar perto do profissional, e conseguirem seguir os próximos treinos normalmente. Ficamos ali no campo mesmo, e quando eles terminaram o treino vieram em nossa direção, o próprio fotógrafo do clube fez as capturas e depois ficou mais ao canto registrando os demais momentos.
Eduarda não fez questão de tirar uma foto com nenhum dos jogadores do elenco profissional de forma individual, ela realmente parecia não se importar, participou apenas das fotos em que as crianças estavam, e era nítido para quem quisesse ver, que ela realmente gostava de estar com o sub-13, a forma como se comportava quando cada um sorria, ou fazia algum comentário era tão espontânea, que ficava me perguntando se nas suas outras relações ela era assim também? Comecei a imaginar como ela era quando saía dali, quando não existia um campo, uma câmera e vinte criando ao redor…Ela era linda, isso era inegável a qualquer um que olhasse pra ela, mas não era isso que parecia me levar a ela, era a forma como ela parecia gostar de fazer as coisas que faz, era como no meio de pessoas famosos, as mais importantes fossem aquelas com quem ela realmente tem um vinculo. Ter gente que se comporta dessa forma, ainda mais quando se é famoso, mas você parecer…normal.
A primeira criança levantou a mão para fazer uma pergunta, e foi impossível não conter a risada
— Quem é o mais bagunceiro?
Eduarda fechou os olhos e respirou. Acredito que essa não era a ideia das perguntas, penso inclusive que não teve um roteiro feito. Um dos jogadores responde de forma divertida o que arranca mais risadas do sub-13. A segunda pergunta envolvia dinheiro, quem ganhava mais
— Essa definitivamente não estava na lista. — Eduarda respirou ainda mais fundo ao falar e fomos para a próxima
— Você já beijou uma fã?
Ela coloca a mão na testa. Os jogadores começam a rir. Ela interrompe.
— Certo. Vou reformular. Cada um agora vai fazer uma pergunta que possa ajudar vocês a serem jogadores melhores.
O Silêncio tomou conta por alguns segundos, as crianças realmente haviam parado para pensar. As perguntas mudaram, e foram seguidas:
— Como vocês lidam quando erram?
— Qual foi a pior fase da carreira?
— O que vocês gostariam de ter aprendido aos treze anos?
O ambiente mudou completamente. Resolvo interagir um pouco mais e respondo
— Eu queria ter aprendido que um erro não decide um jogo inteiro.
E ao responder, parece que pela primeira vez, naquela manhã de segunda-feira ela me olhou de verdade. Não era romântico, era quase que um olhar de empatia, de entender o que aquilo realmente significava.
— O que vocês fizeram em campo foi simplesmente incrível, são um excelente time — elogiei o time, ela havia pedido que a gente não elogiasse nenhum de forma individual
— Chegamos então no momento do elogio específico? — um dos minis capitães do time pergunta.
Eduarda toma frente e explica
— Elogio específico é uma das fases do programa que eles aprenderam. Ao final do treino, cada atleta precisa elogiar um comportamento observável de outro colega. Nunca. “Você joga muito.” por exemplo, precisa ser sempre. “Gostei da forma como voltou para marcar.” “Você continuou pedindo a bola depois de errar.”
Fiquei surpreso, eles criaram um ritual e os atletas já estavam tão familiarizados que no momento que fiz o elogio, eles já mudaram o rumo da conversa, e confesso, que foi muito bom, ver cada um recebendo um elogio, ninguém ficou de fora, nenhum elogio contribuia para que um estrelismo aparecesse de forma individual, no futebol estamos acostumado com “craque”, “monstro” e “você joga muito”, mas elas aprenderam a fazer exatamente o oposto. E talvez seja por isso que eles jogavam daquele jeito em campo.
— Separamos como time um elogio específico para uma das pessoas do nosso time — aquilo parece pegar ela e Martin de surpresa
— Aé? E como é esse elogio?
— Gostamos da forma como você acreditou que a gente conseguia chegar até aqui. — uma das crianças falou, com os olhos marejados, ela, naquele momento, transmitiu aquele mesmo olhar, quase que como um reflexo da criança, dobrou as duas mãos em cima do coração para mostrar que aquilo significava muito pra ela.
Outro criança continua
— Quando você contou na sexta da pizza, que conseguiu convencer o clube… — a voz dele falhou — alguns de nós choraram muito — Antes que ela fosse capaz de falar algo, já havia 20 crianças em cima dela, o que a levou a ter uma crise de riso em conjunto
— Somos um time, lembram? — Foi a única coisa que ela conseguiu falar, na verdade que foi capaz de falar porque a voz saiu tão embargada que eu tinha certeza que ela iria cair em lágrimas, ouvi o clique da câmera do fotógrafo sobre eles, eu também eternizaria esse momento se eu pudesse.
O treinador saiu com as crianças, como se quisesse dar um tempo para ela respirar ou chorar escondido, ela secou algumas lágrimas que saíram, não fez cena, não tentou chamar a atenção de ninguém que ainda estava no campo. Apenas abaixou a cabeça por alguns segundos, depois vi o movimento que seu corpo fez quando ela respirou fundo, olhou pra frente e levantou.
Foi naquele instante que entendi uma coisa. Ela nunca tinha ensinado aquelas crianças a fazer algo que ela mesmo não tivesse praticado. E pela primeira vez desde cheguei ao Borussia, tive vontade de conhecer alguém muito além do futebol.