Eduarda e Jobe. Você pode trocar os nomes quando quiser.
Eduarda
Desde pequena, sempre pensei muito, pensava tanto que por vezes era sempre pega falando sozinha da rua. Quando fui crescendo, conversar sozinha na rua já não era uma boa coisa, mas ainda sim, eram tantos pensamentos que eles não conseguiam ficar na cabeça, e não era como se eu quisesse conversar com alguém, eu só precisava falar comigo mesma. No auge da vida adulta, os pensamentos não diminuíram, na verdade eu só havia parado de dizê-los em voz alta. Então quando fiquei repassando todos os momentos dentro daquele carro com Jobe durante todo o final de semana, pensando se falei o suficiente, se poderia ter dito outras coisas, mas no final, isso não importava, eu estava feliz, feliz com a nossa interação. Eu me sentia radiante.
Eu não sabia ainda, mas durante os próximos dois meses esse sentimento iria me acompanhar.
Na segunda-feira quando cheguei ao CT Jobe já estava na musculação com o restante do time, entrei na sala e meu café já estava na mesa, olhei para ele no corredor. Levantei o copo como agradecimento.
Jobe
Passar para vê-la na sala de vidro virou uma rotina ao longo dos dias. Sempre que sobravam cinco minutos entre um compromisso e outro, meus pés pareciam sempre escolher atravessar aquele corredor antes mesmo que eu pensasse. Eu dizia a mim mesmo que era só curiosidade pela pesquisa. Talvez fosse, pelo menos no início. Mas com o passar do tempo, a verdade é que, quando eu chegava perto da sala e via que ela estava ali, concentrada nas anotações, meu dia parecia funcionar melhor.
Até nos dias em que o contato era breve, pois ela sempre estava concentrada na pesquisa, e esquecia que o resto do CT existia, inclusive eu. Me fazia gostar dela. Gostava da forma como ela mergulhava completamente no que fazia, eu sabia essa sensação pois era isso que eu fazia em todas as partidas. Eu nunca insistia em conversas longas nesses dias. Saber que ela estava ali bastava.
— O que está fazendo? — ela olha imediatamente para porta
— Marcando em quanto tempo um atleta demorou para acertar um chute que esperávamos que ele errasse. — ela respondeu e voltou a fazer anotações. Observei mais um segundo e me afastei.
…
Depois de algumas semanas, percebi que nossas caronas tinham deixado de ser um favor. Eram parte da nossa rotina. Ela entrava no carro como quem já pertencia aquele espaço. Colocava a bolsa atrás do banco sem pensar. Ligava o aquecedor antes mesmo de eu perguntar se ela queria. Escolhia alguma música da nossa playlist e, quase sempre, esquecia a garrafa de água no porta copos.
Eu devolvia no dia seguinte.
Ela esquecia de novo.
Nunca fiz questão de lembrá-la na hora. Acho que gostava daquele pequeno motivo para procurá-la na manhã seguinte.
Eduarda
As caronas não tinham sido a única coisa que havia virado rotina entre a gente. Quase sempre estavamos ocupados com os nossos trabalhos, então mensagens de
“Chegou?”
“Bom jogo hoje!”
“Os meninos ganharam hoje”
“Bom descanso”
Se tornaram constantes, era uma das formas que conseguimos encontrar para dizer ao outro, você faz parte do meu dia.
…
Jobe fazia questão de se manter por perto sempre que dava. Lembro-me do dia que ele perguntou quando voltávamos de carro juntos se podia assistir outro treino dos meninos. Olhei pra ele semicerrando os olhos de uma forma engraçada como se estivesse pensando, era mesma reação que usava com os meninos até responder
— Pode sim, mas dessa vez sem se esconder deles — vi quando ele ficou sem graça, eu já tinha percebido um tempo que ele estava indo mais vezes — Quando eles estão no campo deles, estão treinando coisas técnicas, não tem problema eles te verem.
Jobe
O tempo durante a semana era realmente escasso. Os maiores encontramos que tínhamos eram sempre nas caronas ou no CT. Então, quase sem perceber, começamos a aguardar um pedaço do fim de semana um para o outro.
Ela não gostava de videogames, mas eu queria descobrir se existia uma mínima chance dela aprender a jogar.
Ela amava filmes de terror, e fez uma lista de alguns que eu tinha que assistir.
No fundo, acho que nenhum estava muito interessado na atividade um do outro. A gente só tinha encontrado uma desculpa muito boa para continuar se vendo fora do CT.
…
Comecei a me arrepender de sugerir o vídeo game quando percebi que ela claramente iria quebrar o controle. Como alguém podia apertar todos os botões ao mesmo tempo, e ficar inclinando o controle como se isso de alguma forma fosse ajudar o personagem a correr mais rápido, não tem sentido nisso. Como se não bastasse, ela reclamava de absolutamente tudo.
Era impossível jogar.
— Você não pode apertar todos os botões desse jeito e com tanta força assim — falei de forma muito incrédula
— Você está roubando!
— O que??!! Nenhum dos seus irmãos ou primos te ensinaram a jogar vídeo, como pode ser tão ruim assim.
— Dane-se, não vou jogar mais! Joga sozinho já que você é tão bom assim!
Ela largou o controle e atravessou para o outro sofá emburrada. Eu sabia que ela estava fingindo metade daquela indignação. A outra metade era competitividade pura.
Revirei os olhos fingindo derrota, coloquei o jogo no pause e atravessei a sala. Segurei seus braços e a puxei de volta para sentar ao meu lado. Foi nesse instante que percebi que ela nunca tinha levantado por estar realmente brava, parecia só querer eu fosse buscá-la, eu fui, sem nem pensar.
Ela veio reclamando, mas não o suficiente para fazer qualquer esforço para não voltar
— Vamos trocar de jogo. — ela continuava fingindo estar brava — Você é uma péssima perdedora.
Ela até tentou esconder o sorriso, mas perdeu essa batalha em poucos segundos, tinha conseguido exatamente o que queria. E o problema foi que eu achei absurdamente fácil me entregar assim.
…
Filmes de terror quase sempre são previsíveis, e ela sabia disso, pois foi extremamente difícil encontrar um que ela não havia assistido, e mesmo assim ela ficava falando durante o filme todo que o susto estava vindo.
Passava quase todas as cenas escondendo o rosto entre as mãos ou espiando pela fresta dos olhos.
Eu ria. Ela reclamava comigo.
— Por qual motivo você coloca um filme de terror se não vai assistir ele?
— Estou assistindo, mas estou me preservando de algumas partes para que eu consiga dormir mais tarde.
— Isso não faz sentido.
— Na minha cabeça, faz sim.
Em algum momento parei de prestar atenção nos filmes, pois era muito mais interessante ver as reações dela. Não demorou vinte minutos para a cabeça dela começar a pender de leve pro lado. Ela estava dormindo, mas ela era competitiva demais, até com o sono, tentava fingir que ainda estava assistindo, respondendo algo fora de contexto e dormindo outra vez. Aconteceu tantas vezes, que em determinado momento eu desisti do filme e me concentrei apenas nela.
Desliguei a TV e peguei duas cobertas, ela continuava dormindo. Cobri seus ombros primeiro e me ajeitei na outra ponta do sofá. A sala ficou completamente silenciosa.
Não devia existir mais de um metro de distância entre nós. Mesmo assim, pela primeira vez desde que nos conhecemos, aquilo parece longe demais.
Ficar observando ela me fez entender algo que eu ainda não tinha coragem de dizer em voz alta, passar tempo com ela já não era mais suficiente, uma parte minha precisava dela mais perto.
Eduarda
Outras coisas, começaram a fazer parte da minha rotina, ir aos jogos oficiais do Borussia vê-lo jogar. Lembro-me da primeira vez que peguei ele de surpresa.
“Os meninos ganharam o jogo de hoje”
“Eu tinha certeza que eles iam ganhar, preciso ir. Também tenho um”
“Eu sei, estou aqui na torcida por você”
“Eu sei, obrigada”
Enviei uma foto minha na torcida
“Estou literalmente na torcida”
“Não brinca”
Ele não respondeu mais, porém depois do hino, acenou de leve.
Ele não marcou nenhum gol, mas deu bastantes assistências. Quando o jogo acabou e o estágio esvaziou corri metade no caminho até ele e pulei no seu colo
— Parabensss! Foi o craque do jogo.
— Craque? Achei que não podia ter elogio específico.
— Você não faz parte da minha pesquisa, é o meu amigo. Então posso te chamar de craque que sim
— Justo.
Beijei sua bochecha e desci do seu colo. Vi seu pai se aproximando da gente, conviver com ele já tinha virado um hábito, não tinha conseguido conhecer o restante da família dele, e pensava que não tinha o porque também éramos amigos, isso ia acontecer em algum momento.
— Vamos embora? — eu sabia que aquela pergunta era para os dois, Jobe e eu, concordamos — Podemos comer hambúrguer hoje?
— Eu mataria por uma batata frita! — Jobe sorriu e passou a mão por cima do meu ombro e saímos dali
— Eu estava quase esquecendo de contar, esses dias um dos meninos do sub-13 estava vendo um jogo de uma das categorias maiores e ouvi ele dizendo próxima jogada para um jogador mais velho, acredita?
— Você está brincando??
— Eu te juro.
— Isso é incrível! — olhei pra ele sorrindo — Meu dia não poderia ter ficado melhor.
…
Outras coisas foram ficando melhores também, como a sexta-feira da pizza. Vez ou outra ele aparecia em uma, eu não sabia se ele iria essa semana, mas assim que ele atravessou a porta junto com o pai, as crianças vibraram. Eu não tive muito sua atenção, passei mais tempo conversando com um dos irmãos mais velhos de um dos meninos, mas vez ou outra lançava o olhar pra ele, que parecia realmente estar entretido com as crianças.
Eu adorava vê-lo assim
Gentil.
Distraído.
Sendo ele.
Voltei a atenção para o rapaz a minha frente e ri de algo que ele falou, não lembro o que era, ri por educação, minha atenção estava em Jobe.
Jobe
Eu tentava manter o foco nas crianças durante a noite da pizza, nos pais, mas toda vez que meus olhos acompanhavam o seu corpo, suas reações, me fazia perceber que ela parecia completamente confortável perto de outra pessoa.
E isso começou a me incomodar.
Quando entramos no carro fui dirigindo quieto, tentando entender o que tinha acontecido.
— Está tudo bem?
— Sim.
É apenas o que consigo dizer, vejo ela se ajeitando no banco do lado, sei que está se preparando para falar algo, mas é interrompida pelo meu celular que começa a tocar. Atendo e coloco na videochamada enquanto estou dirigindo.
— Como você está? — ele perguntou.
— Bem. E você? Parabéns pelo jogo de quarta. Jogou demais. Estava ocupado e acabei esquecendo de mandar mensagem.
— Estou sabendo. Mamãe disse que você tem uma amiga agora. Por isso anda tão ocupado.
Meus olhos foram direto para ela.
Ela percebeu.
Me olhou de volta.
E tenho quase certeza de que Jude percebeu o silêncio do outro lado da ligação.
— Ela está aí com você, não está?
Eduarda fez um discreto movimento negativo com a cabeça, como se dissesse “não precisa”, mas já era tarde.
Virei o celular na direção dela.
— Oi. Prazer.
Ela sorriu daquele jeito educado que sempre sorria quando conhecia alguém.
— Oi. Prazer.
Jude riu do outro lado.
— Então é você que anda ocupando todo o tempo livre do meu irmão?
Ela franziu levemente a testa, como se realmente estivesse fazendo a conta. Depois deu uma risada baixa.
— Eu não sabia que estava ocupando tanto tempo assim.
Ela falou de um jeito completamente espontâneo, como quem tinha acabado de descobrir uma informação nova. Como quem nunca tinha parado para pensar que todos os momentos desses últimos 2 meses, de fato, ocupavam quase todo o meu tempo livre. Mas eu tinha parado para pensar. Na verdade, fazia alguns dias.
E ouvir outra pessoa dizer aquilo em voz alta teve um efeito estranho. Porque, pela primeira vez, pareceu óbvio. Ela realmente ocupava boa parte dos meus dias.
— Cara, estou dirigindo, depois eu te ligo. — encerrei a ligação no mesmo momento que chegamos em frente ao apartamento dela. O silêncio ficou entre nós.
— Tem certeza que está tudo bem? Alguém falou algo que te incomodou hoje?
Neguei com a cabeça.
O silêncio voltou a ocupar o carro.
Nos últimos dois meses o silêncio nunca tinha sido um problema entre nós. Às vezes dirigia quinze minutos inteiros ouvindo música sem dizer uma palavra.
Mas daquela vez era diferente.
Ela esperava que eu dissesse alguma coisa.
E eu também.
Respirei fundo.
Tentei entender em que momento aquilo tinha começado.
Talvez no primeiro café.
Ou na primeira vez que dei carona porque estava chovendo.
Talvez quando passei a devolver a garrafa de água que ela sempre esquecia no meu carro.
Ou foi quando ela apareceu de surpresa no meu jogo.
Talvez tenha sido quando ficamos mais de meia hora no carro montando a playlist juntos.
Ou quando ela comemorava cada movimento meu no campo.
Talvez tivesse sido no videogame, com aquela cara de emburrada.
Ou foi vendo ela dormir antes do filme acabar.
Eu ficava voltando em tudo para entender quando, mas a verdade é que eu não fazia ideia.
Coloquei a mão no rosto.
Cocei o cabelo.
Os pensamentos não paravam.
Eu só sei que passei a organizar meus dias esperando encontrá-la.
Quando o treino acabava, meus pés iam automaticamente para sala de vidro.
Quando alguma coisa engraçada acontecia, minha primeira vontade era contar a ela.
Quando um jogo acabava, eu torcia para ela correr na minha direção e pular no meu colo.
Olhei ela nos olhos, me lembrando deste dia. Ela disse que éramos amigos.
E eu continuaria acreditando que aquilo que estávamos tendo poderia ser chamado de amizade, fazia sentido. Mas, bastou vê-la sorrindo com outro cara por alguns minutos….
…para eu descobrir que não éramos só amigos, que não queria mais ser só seu amigo.
Senti um toque leve na minha perna. Ela esperou eu levantar o olhar.
— Ei… — a voz dela saiu quase como um pedido — Fala comigo.
Não tinha cobrança no seu pedido, tinha preocupação.
E foi nesse momento que senti que estava desmontando.
Ela esperou até que eu conseguisse. Respirei fundo.
— Gosto de estar com você.
Fiz uma pausa
— Muito mais do que imaginei que gostaria.
Ela continuou me olhando.
Era agora ou nunca.
— Na próxima semana minha família vai passar alguns dias reunida…
Fiz uma pequena pausa.
— Você gostaria de viajar com a gente?