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Capítulo 1

105 metros

Capítulo da fanfic inspirada em Jobe Bellingham

Você está dentro da história:

Eduarda e Jobe. Você pode trocar os nomes quando quiser.

Quando aceitei vir para a Alemanha, imaginei que atravessar um oceano seria a maior distância da minha vida, mas ao final de oito meses de projeto descobri que estava errada. Que um oceano não era nada se comparado ao cento e cinco metros que poderiam a partir de hoje começar a separar o time de base sub-13 do elenco profissional da Borussia Dortmund.

Desde que cheguei aqui passei a gostar de muitas coisas, me rendi ao pretzel, ao chucrute e ao bolo de floresta negra que parecia existir em todos os estabelecimentos possíveis. Cheguei aqui quase junto com o inverno, o que me lembrava constantemente da minha cidade no Brasil, que eu sempre achei muito fria. Descobri rapidamente que eu nunca soube, de verdade, o que era inverno. Apesar do frio, eu estava conseguindo me acostumar, o que eu não conseguia fazer era evitar sentir a falta da minha casa, da minha família, do meu sobrinho que estava com exatos 2 anos, e que tinha acabado de aprender a falar tia. Também tinha acabado de descobrir que ele aprendeu a chutar uma bola. Tudo isso na mesma época que saiu a notícia do mestrado e precisei me mudar. Antes eu sentia que tinha todas as interações que precisava para ficar viva, mas ao longo desses 8 meses tive poucas interações sociais, me sentia muito sozinha quase que o tempo todo, e nesses momentos de muita solidão, era impossível pra mim que sempre me achei emocional demais não chorar. 

Mas chegou um tempo que eu encontrei momentos de prazer, e eles aconteciam quando eu estava com as crianças, com os seus pais, comecei a perceber que o meu dia favorito, era a sexta-feira da pizza, criada pelos pais dos minis atletas desde que eu cheguei e falei que amava pizza. Eles me faziam sentir que eu pertencia àquele lugar, que talvez eu finalmente tivesse um lar para chamar de casa novamente e é justamente nesses momentos que eu realmente sei que fiz a escolha certa ao pensar nesse projeto de mestrado. 

Eu sempre pesquisei muito desenvolvimento infantil, regulação emocional, desenvolvimento de repertórios, e depois que comecei a fazer diversas atividades físicas, a saúde física e mental foi ganhando um espaço muito significativo na minha vida, durante a graduação eu sempre soube que iria trabalhar com crianças, e decidi que iria para área do esporte. Por um momento, achei que o mestrado não daria certo, afinal, que clube abriria as portas. Mas aconteceu, e depois de muitas ligações e muitos contatos, apareceu uma vaga no Borussia Dortmund.

A minha pesquisa tinha como tema Desenvolvimento de repertórios comportamentais relacionados ao desempenho esportivo em atletas das categorias de base do Borussia Dortmund. E de forma geral a ideia era conseguir desenvolver repertorios de  Regulação emocional, Aprender a ganhar e perder; Cooperação; Comunicação; Respeito às regras; Atenção sustentada; Início da liderança e Desenvolvimento da autonomia. A ideia de pensar em desenvolver isso com o sub-13 é porque esse é um dos períodos mais importantes da formação esportiva deles. 

O primeiro início da pesquisa durou cerca de 3 meses, onde fiquei acompanhando, observando e gravando cada treino, a rotina deles enquanto estavam no centro de treinamento, tudo isso para conseguir mapear o que seria possível trabalhar com eles e começar a desenvolver. Após o processo de observação, o programa acabou sendo dividido em oito etapas. Algumas ensinavam a lidar com o erro, outras fortaleciam a comunicação, a liderança, o senso de equipe e até a forma como eles observavam uns aos outros. Entre todas, havia uma pela qual eu tinha um carinho especial: Próxima Jogada. 

A cada vez que eu parava para assistir as intervenções sendo feitas, por eles, me surpreendia em como eles aprendem rápido, como foram evoluindo o jeito de se relacionar entre si. Tudo o que eles conseguiam fazer me brilhavam os olhos, principalmente durante o processo de intervenção que durou 2 meses, lembro me da primeira vez que eu e Martin vimos a primeira vez que começou a funcionar, aquele serzinho de 12 anos, errou o passe e sempre ficava bravo, e quando ele respirou olhou pra frente  e seguiu pedindo a bola, a gente vibrava tanto por dentro. O resultado de 8 meses trabalhando todos os dias com aquelas crianças, foi ver a felicidade explodindo nos olhos deles quando foram campeões do torneio, foi ver ao final quando eles se reuniram para fazer o que aprenderam na etapa 5 do programa, elogio específico. Apesar de eu ter todos os dados, todas as evoluções mapeadas no meu tablet e notebook, aquele momento, aquele pequeno momento, me fazia entender que o meu trabalho realmente valia a pena.

Hoje era o dia da minha reunião com a coordenação do clube para apresentar os resultados do programa, ao passo que me preparava para fazer um novo pedido a eles: integrar uma vez por semana o sub-13 no mesmo campo que o elenco profissional. Por vezes o elenco principal não usa o campo todo, eles ficariam de um lado e as crianças do outro, a ideia não é que eles tenham interação, mas que consigam ter essa exposição gradual ao ambiente profissional sem perder tudo que construímos, seria um reforçador maior. A sala de reuniões da coordenação ficava na parte mais alta do CT que dava pra ver todos os campos, ali de cima eu conseguia ver os meus atletas jogando, e deu para reparar no momento em que um deles errou um passe, respirou fundo, olhou pra frente e pediu a bola novamente, sorri, aquela ali era a fase 1 do programa.

Prendi meu cabelo, respirei fundo, era a hora de conseguir fazer a minha parte por eles. Apresentei todas as informações para a direção do clube por cerca de quase 1 hora, quando ao final o treinador do profissional levanta a mão e questiona

— Eles não vão ficar distraídos, com essa integração?

— Nas primeiras semanas, sim. Mas se eles não aprenderem a manter a atenção em ambientes controlados, nunca estarão tão bem preparados para jogar diante de uma multidão. O próximo campeonato deles é o interestadual, teremos muito mais torcida, a ideia é prepará-los.

— Por mim, tudo bem — o treinador do profissional responde, enquanto eu aperto  a mão do Martin treinador do sub-13, eu devo muito a ele, esteve muito aberto a tudo desde que cheguei. —  O profissional deve estar me esperando, vocês querem conversar com eles sobre? Creio que eles terão papel nisso, sobre os tipos de interações que poderão ter com os meninos.

— Seria ótimo. —  Saímos os 3 da sala da diretoria e caminhos até o campo do time profissional que ficava do outro lado do CT (Centro de Treinamento), enquanto caminhávamos eu só conseguia pensar em como seria chegar hoje na sexta da pizza e contar a eles, não havia mencionado nada sobre isso, pois não queria gerar expectativas, mas de uma coisa eu tinha certeza agora, a pizzaria iria virar de ponta-cabeça.

Chegamos ao campo, e eles estavam conversando entre si, quando o técnico os reuniu, deu pra notar alguns olhares curiosos, sorrisos, e eu só consegui pensar  naquele momento que  eu estava sempre tão focada nas crianças que não me lembrava exatamente o nome de todos eles, como os campos ficavam em partes opostas, tudo ali agora me parecia novo, inclusive eles.

— Esse aqui é o Martin técnico do sub-13 e essa é a Eduarda, aluna do programa de mestrado de uma das melhores universidades do país, eles estão a cerca de 8 meses desenvolvendo um programa com o sub-13 que tem funcionado bem, pois como sabem eles foram campeões do último torneio, e de agora em diante uma vez por semana, eles vão treinador junto com vocês na outra metade do campo. A Eduarda vai explicar melhor.

Prender meu cabelo em um coque antes de falar coisas que considero importantes era quase que um ritual. Fiz um coque, respiro fundo e comecei.

— Vamos lá, espero que estejam bem —   resumi o programa em poucos minutos e enquanto ia falando meu olhar percorria cada um dos jogadores, e parou por alguns segundos em um deles. Não era exatamente o rosto dele que me chamava a atenção, mas podia perceber algumas expressões enquanto eu explicava, que era quase como se estivesse realmente interessado em entender tudo o que eu dizia. — Vocês podem interagir com as crianças, como, oi quando eles chegarem, mas durante todo o treino, preciso que evitem falar, aplaudir, gritar, observar tudo bem, mas não podem dar atenção exclusiva a uma criança, até porque a ideia é que vocês sigam sua rotina normal de treino, e eles sigam a deles.

Todos afirmam com a cabeça, o que eu entendo que compreenderam

— Obrigada, é isso. —  digo juntando as minhas mãos e percebo que estou meio nervosa, não deveria, mas estou, ou deveria, ficar tanto com as crianças e tendo tanto trabalho para analisar e organizar dados que desde que cheguei na Alemanha tinha me esquecido como era conversar com adultos da minha idade. Afastei a ideia tão rápido da minha cabeça quanto chegou, e tentei me dar o mesmo aviso que dei às crianças, são só atletas. Me viro pra sair junto com Martin, mas não sem antes olhar pra trás e admirar o campo mais uma vez. E por um breve instante encontrei os olhos do mesmo jogador que parecia ter prestado atenção em cada palavra que eu disse. Sorri por educação e me virei. Naquele momento, achei que aquele seria apenas mais um encontro casual entre tantos outros que acontecem dentro de um centro de treinamento. 

Mas eu estava errada.

Aqueles cento e cinco metros já tinham começado a diminuir.

Aviso: Esta é uma obra de ficção criada por fãs, sem vínculo, autorização ou endosso de Jobe Bellingham, seus representantes, clubes ou marcas relacionadas.