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Capítulo 3

Sala de Vidro

Capítulo da fanfic inspirada em Jobe Bellingham

Você está dentro da história:

Eduarda e Jobe. Você pode trocar os nomes quando quiser.

Eduarda

Se sentir pertencente, sempre foi um valor na minha vida. Porque pertencimento causa segurança emocional, constitui identidade, dá a sensação de importância. Então quando eu soube que a diretoria do Borussia havia disponibilizado uma sala no CT para que eu pudesse continuar analisando os dados da pesquisa ali, eu senti que eles estavam, dizendo “você faz parte disso”. Mas quando parei em frente a sala, e vi que era de vidro, o sentimento de pertencimento foi substituído muito rápido pelo de exposição, eu estava exposta…visível. 

Eu não tinha problemas em me expor, mas acredito fielmente que exposição precisava de vínculo e intimidade e quando eu olho ao redor, e vejo que tudo em volta me liga ao time principal do Borussia, não existe vínculo nisso. Não conheço os profissionais que atuam com eles, eu mal conheço o time. Era só exposição de forma gratuita, entre pessoas que eu não tenho nenhum tipo de vínculo e provavelmente sairia ao final da última fase sem ter. Se antes tinha um campo dividindo a gente, eu me encontro novamente com uma parede, só que agora de vidro.

Coloquei os fones e minha playlist favorita pra tocar, ao longo do dia fui organizando minhas anotações, analisando dados e pensando nos próximos passos. E apesar de estar ali, as pessoas lá foram tinham uma rotina própria, eles treinavam, eles riam juntos, brincavam juntos, conversavam juntos, faziam musculação juntos…estavam sempre juntos…E isso começou a me causar um incômodo que eu não entendi bem o motivo, só me incomodava estar observando tudo isso acontecendo.

Quando ficou insustentável, decidi que iria atrás de um café, e quando estava saindo da sala, esbarrei em Jobe Bellingham. 

— Me desculpa.

— Tranquilo — ele falou sorrindo e seus olhos foram direto para a minha sala, onde eu havia pendurado vários papéis e rabiscado o vidro — Isso tudo faz parte da sua pesquisa que esta fazendo com o sub-13?

— Faz sim

— Você realmente consegue medir tudo isso? —  a pergunta dele parecia realmente sincera, então de forma bem breve explico sobre análise do comportamento usando o sub-13 como exemplo em regulação emocional. 

O mais curioso era que ele realmente escutava cada palavra que eu dizia. Não esperava minha resposta olhando para o relógio que estava no pulso, ou olhando aos arredores, estava focando em mim. Quando eu terminava de responder, vinha outra pergunta, como se ele estivesse realmente tentando entender de verdade cada coisa que eu ia falando. Foi talvez a primeira vez que percebi que ele parecia interessante, por estar interessado em algo que eu amava falar. 

A nossa conversa se encerrou quando ele precisou sair para fazer um exame, segui para onde pretendia, pegar um café. 

Quando voltei a sala percebi que havia passado trinta minutos  conversando com ele e eu nem percebi isso, talvez pelo fato de que faz meses que não converso com outra pessoa que não sejam crianças, pais e treinador.

Abri no notebook para ver um vídeo mas não consegui focar, fechei.

Abri outro vídeo e nada.

Não conseguia focar, olhei em volta  e percebi que todos estavam seguindo suas vidas, suas interações. Meu olhar encontrou Jobe que estava passando novamente pelo corredor, conversando com outro jogador, eles riam de alguma coisa que obviamente eu não conseguia ouvir. Achei curioso perceber que ele parecia exatamente igual ao que tinha sido comigo há poucos minutos, escutava olhando nos olhos, ria sem exagero, gesticulava enquanto falava. Ri sozinha, mas não sabia dizer se sorri porque fiquei feliz de ter tido contato com alguém fora daquela sala, ou se foi um sorriso de tristeza, por lembrar como era bom conversar com alguém daquela forma.

Talvez, seja um pouco da duas opções, mas suspeito que pensar na última fazia grande sentido pra mim, eu olhava todos em volta tendo interações que me lembravam que fazia oitos meses que me acostumei a conversar com crianças de doze anos, pais preocupados e treinadores, e eu amava isso, eu amo mesmo isso. Mas, um lugar dentro de mim me lembrou que eu tinha deixado de lado a outra parte das interações que eu precisava e que eu também queria de lado.

Continuei observando os atletas do outro lado do vidro. Alguém falou alguma coisa que fez o grupo inteiro rir. Outro deu um leve empurrão no embro de um companheiro. Um terceiro passou segurando duas bebidas e entregou uma sem que ninguém precisasse pedir.

Eram pequenas coisas.

Tão pequenas que, quando a gente tem todos os dias, nem percebe que existem. Mas eu não tinha aquilo, por isso perceber era tão facil

A ficha foi caindo. A sala não me incomodava porque estava me expondo. Era porque ao me expor, ela não mostrava o que eu queria que outras pessoas vissem.

Eu estava ficando emocional novamente.

Respirei fundo, e encostei a cabeça no vidro dizendo a mim mesma, que estava tudo bem, que estava tudo bem sentir falta dessas coisas, das coisas que eu tinha antes mas não tenho mais agora. Está tudo bem você desejar tudo isso Eduarda.

Passei oito meses observando comportamentos. Aprendi a reconhecer quando uma criança precisava de incentivo maior antes mesmo que ela percebesse. Aprendi a identificar medo, ansiedade, frustração e alegria. Mas, olhando agora, em algum momento, esqueci que eu também era alguém que precisava ser vista. E talvez fosse exatamente  isso que essa sala de vidro estava tentando me mostrar.

A ironia da situação era quase engraçada. Uma psicóloga desejando ser observada também. Creio que no final é isso que torna a gente humano.

Desencostei a cabeça do vidro e respirei fundo mais de uma vez. Quando olhei para fora, encontrei Jobe parado do outro lado do corredor.

Nossos olhares se cruzaram.

Ele sorriu de leve.

Eu não consegui retribuir.

Ainda estava tentando organizar tudo o que tinha acabado de sentir para conseguir fingir que estava tudo bem. Desviei primeiro o olhar, virei de costas para o vidro e voltei para o notebook.

Mas, por algum motivo, a sensação de que ele tinha visto mais do que apenas eu encostada no vidro continuou comigo pelo resto da tarde.

Aviso: Esta é uma obra de ficção criada por fãs, sem vínculo, autorização ou endosso de Jobe Bellingham, seus representantes, clubes ou marcas relacionadas.